Transformados em máquinas

As actividades que enobrecem a espécie humana são aquelas que não podem, de forma alguma, ser desempenhadas por máquinas. Por outro lado, considero profundamente degradante o exercício de qualquer actividade que pudesse ser executada, de forma mais rápida e eficiente, por uma máquina. Vamos a coisas concretas.

Uma obra de arte ou uma peça de artesanato são valorizadas, não especialmente pela sua beleza mas sobretudo pelo facto de serem peças únicas que uma máquina não poderia produzir. No exercício de actividade intelectual, que é aquele que me interessa agora explorar, considero degradantes as situações em que pessoas são colocadas a executar tarefas que podem hoje ser feitas, com toda a perfeição, por computadores. Isto quer dizer que várias tarefas, que seriam consideradas caracteristicamente humanas há alguns anos, deixaram de o ser com o avanço da informática. As pessoas devem ser retiradas de tarefas desse tipo, para que a sua inteligência seja usada com mais proveito. Quero analisar com algum pormenor dois tipos de situações que vivi na minha carreira, que se transformaram em tarefas degradantes nos últimos anos mas continuam, indevidamente, a ser exercidas por pessoas. 

A primeira situação vive-se nos júris, sejam eles júris para concursos académicos, para selecção de pessoas ou compra de bens. Para que se perceba, nos júris de concursos académicos é pedido aos candidatos que forneçam um currículo detalhado mas, devido à legislação actual e ao número crescente de recursos para tribunais, o júri faz pouco mais do que aplicar uma grelha de critérios e uma fórmula. Se a legislação se mantiver, penso que os candidatos devem passar a ser convidados a preencher uma folha de cálculo, onde constem classificações obtidas, número de publicações e todos os restantes elementos de apreciação. As folhas de cálculo de todos os candidatos podem então ser comparadas pelo computador que ditará o vencedor; isto evitará pagar ordenados de professor catedrático para uma tarefa simples, que o computador desempenha na perfeição. Julgo que seria mais sensato alterar a legislação no sentido de permitir que os candidatos pudessem suscitar a suspeita relativamente à isenção de qualquer membro do júri mas que, uma vez constituído este, a sua deliberação fosse soberana, não sendo sequer divulgados os procedimentos seguidos na deliberação; infelizmente não me parece que caminhemos nesta direcção.

Uma situação diferente, mas não menos preocupante, vive-se nos simpósio, conferências e, pior que tudo, em aulas. O problema resulta do uso e abuso de ferramentas de apresentação como o Power Point que, sendo ferramentas extremaente úteis, que podem ajudar a tornar atraente uma exposição maçuda, também podem levar a uma completa alienação do apresentador. Eu pergunto que sentido faz uma apresentação que se resume a uma sequência de projecções na tela que o apresentador se limita a ler. O mesmo efeito, sem tirar nem pôr, poderia ser obtido com dispensa completa do apresentador e daqui conclua-se qual será o resultado se a coisa se passa numa aula.

Ainda a este propósito mas afastando-me um pouco do tema, ocorre-me falar do guia de instruções para os professores que têm que vigiar exames de aferição. O guia, com 26 páginas, contém todas as frases que os professores devem pronunciar e todos os comportamentos que devem ter, não lhes sendo permitido afastar-se um milímetro do estipulado. A leitura do guia poderia ser feita por qualquer pessoa ou mesmo por uma ma´quina. O que não poderia ser deixado a uma máquina é a vigilância para evitar cópias, mas isso é actividade meramente policial. Para um professor, ser tratado desta forma é insultuoso. A este propósito vale a pena ler a crónica de António Barreto no Público de 24 de Maio.

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