Óscar e a senhora côr de rosa

No sábado houve teatro na Casa do Povo de Lanhelas. É uma acontecimento raro, que habitualmente resulta de uma iniciativa local, com actores amadores, sem qualquer experiência; apesar disso a população da aldeia costuma aderir e os espectáculos vêm-se com agrado e as falhas inevitáveis são desculpadas; os espectadores têm sempre mais olhos para o esforço dos seus familiares e amigos do que para as suas limitações. Mas ontem era diferente, porque estava anunciado um espectáculo com Lídia Franco.

Fui sem grandes expectativas, apesar de saber que se tratava de uma actriz de créditos firmados. Não sabia nada sobre a peça nem tinha ouvido falar de outros actores. Na sala, porque não há pano de cena, percebi que o cenário era minimalista mas com gosto; o palco estava quase integralmente forrado por cortinas brancas e no centro havia uma chaise longue e duas cadeiras, também brancas. Quando foram dadas as boas vindas, fiquei informado de que se tratava de um monólogo e as expectativas desceram. É que para uma sala com assentos pouco confortáveis, com bastantes crianças, um monólogo parecia pouco adequado; por isso é maior ainda a minha admiração pela interpretação de Lídia Franco. Durante hora e meia a sala, cheia, manteve-se atenta e em silêncio, não se ouviram crianças nem telemóveis. Notável.

Lídia Franco, vestida integralmente de branco e com o cabelo todo metido dentro de uma touca branca, interpreta várias personagens, em alternância, mas sobretudo interpreta Óscar e a Vóvó Rosa. A passagem de uma personagem para outra é feita por expressão corporal, pelo tom de voz e pelo tipo de discurso e o espectador nunca tem quaisquer dúvidas sobre a personagem que está a ouvir em cada momento. Óscar é um menino de 10 anos, atacado de leucemia, que sabe que vai morrer muito em breve, e a Vóvó Rosa é uma voluntária que acompanha doentes no hospital e que se veste com uma bata côr de rosa.

Óscar dita para nós 12 cartas que escreveu para Deus, no últimos 12 dias da sua vida, que são também, os últimos 12 dias do ano. Por sugestão da Vóvó Rosa, Óscar acrescenta 10 anos à sua idade em cada novo dia e termina a sua vida com 120 anos. Dentro desta alegoria, Óscar vai passando todas as fazes da vida de um homem, incluindo os entusiasmos e decepções do amor, vividos nas relações com os seus companheiros do hospital. A história é enternecedora mas é à interpretação da Lídia Franco que se fica a dever toda a sedução do espectáculo.

Anúncios

Deixe um comentário

Filed under Uncategorized

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s