Lembro-me de ter lido, há quase 40 anos, num livro antigo, uma receita para fazer gelo, que envolvia várias misturas; não tomei nota da receita nem da referência do livro e hoje é quase impossível recuperar quer um quer o outro. A questão voltou-me à memória na semana passada, quando alguém se referiu à Real Fábrica do Gelo, em Rio Maior, e eu pensei, erradamente, que poderia lá ter sido usada a tal receita.
É possível que a receita perdida fosse para produzir nitrato de potássio (salitre), o qual seria dissolvido em água, baixando a temperatura da solução a ponto de permitir congelar líquidos que se encontrassem num recipiente nela mergulhado. O processo parece ter sido desenvolvido por um médico espanhol a residir em Roma, de nome Basilius Villaverde, em 1550, e vem descrito a partir da página 339 do livro “A History of Inventions and Discoveries”, de John Beckmann, tradução inglesa de William Johnston, Vol. III, 2ª Ed., 1814, disponível em Google Books. Embora tenha sido declarado que se poderia chegar à temperatura de congelação por dissolução de salitre em água, não há notícia de que alguém o tenha, de facto, conseguido usando água líquida; para se obter gelo era necessário usar uma mistura de neve e salitre.
Quanto à Real Fábrica do Gelo, vim a descobrir documentação no Museu do Cadaval e aí fiquei a saber que foi construída em 1741 e que funcionava pela congelação natural da superfície da água em grandes tanques com 10 cm a 15 cm de altura de água, nas noites de inverno, sendo o gelo recolhido de manhã e transportado para silos onde era compactado e armazenado até ao seu transporte para Lisboa. Nada tinha que ver o processo usado na fábrica do gelo com a receita do século XVI, portanto. Fiquei também a saber da criação da Casa da Neve, em Lisboa, onde hoje se situa o Martinho da Arcada.
