Copianço na justiça

A notícia do copianço generalizado num teste para futuros magistrados, realizado no Centro de Estudos Judiciários, faz hoje capa de todos os jornais, também pela decisão surpreendente de sancionar os auditores atribuindo a todos a classificação de 10 valores.

Este episódio levanta várias questões, a maior parte das quais é abordada nos artigos dos jornais, nomedamente o facto de se considerar a atribuição de uma classificação de 10 valores é punição suficiente para quem copia num teste, a alegada impossibilidade de repetir o teste porque estão aí as férias e, mais que tudo, o facto de serem pessoas com este comportamento que vão ser encarregadas de aplicar a justiça aos seus concidadãos.

Sendo certo que quem copia num teste deve ter classificação de zero valores, julgo difícil estabelecer, sem margem para dúvidas, quem foram aqueles que copiaram e os que fizeram o teste por si próprios, não merecendo punição, sobretudo porque se tratava de um teste de respostas múltiplas. Os correctores do teste podem, sem dúvida, verificar que a distribuição das respostas é tão improvável que só pode acontecer por passagem de informação entre aqueles que a ele se submeteram, mas não devem conseguir saber, com exactidão, quem, em concreto, foi autor ou se aproveitou da informação circulante. Há aqui uma responsabilidade de quem elaborou os testes e de quem vigiou as salas, que ainda não vi salientada.

É humana a tentação de copiar num teste e é obrigação de quem o elabora e vigia a sua aplicação dificultar ao máximo a cópia. Num teste de respostas múltiplas, caso os testes sejam iguais para todos, exige-se enorme atenção por parte dos vigias e grande distância entre as mesas, para impedir um simples olhar para o lado ou o passar de um pequeno papel. Sabem todos os formadores que já testaram os seus formandos por meio de testes de respostas múltiplas, que a tarefa de vigilância fica muitíssimo simplificada se a distribuição das perguntas e das respostas em cada pergunta for diferente de mesa para mesa e não há justificação para que esse procedimento não tenha sido seguido. Dir-se-á que fica complicada a impressão dos testes e a sua posterior correcção, o que pode ser verdade se não houver acesso a meios informáticos; hoje em dia esse acesso está generalizado mas, ainda que não estivesse, não é aceitável que, para comodismo dos formadores, se corra o risco de injustiça na avaliação.

Todo o sistema de justiça nacional está num descrédito profundo e episódios deste género só fazem agravar a desconfiança que os cidadãos têm no sistema e nos seus actores; seria bom que se aproveitasse este caso para uma punição exemplar de auditores e formadores do CEJ, a bem da credibilidade da justiça.

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