A fita do estore

–Ferreira; passa a fita!
O Ferreira era eu e este pedido foi feito em surdina pelo Castro Lopes, que se sentava na carteira à minha direita na sala de aula; éramos 20 alunos na turma do sexto ano e estávamos sentados em quatro filas de carteiras individuais, separadas por coxias. A disposição era por ordem alfabética, com uma excepção para as duas raparigas, que se sentavam na frente, não sei se para estarem sob vigilância mais apertada do professor se para prevenir um potencial comportamento menos próprio por parte de algum dos colegas do sexo masculino; nessa altura as raparigas ainda não se misturavam com os rapazes e uma turma mista era uma raridade. A mim tinha-me calhado um lugar na terceira carteira a contar do fundo da sala, do lado esquerdo, junto à janela, e era por isso que tinha que ser eu a passar a fita, que era a fita do estore avariado.
Aquilo tinha acontecido uns dias antes, quando a fita do estore rebentou na altura em que este estava a ser aberto. O estore passou à situação de permanentemente aberto e a fita recolheu-se para dentro da parede, impulsionada pela mola, ficando apenas com uma pequena língua fora da parede. É claro que, puxando pela língua, a fita se desenrolava suavemente e expunha um comprimento apreciável, que lhe permitia atravessar duas coxias e chegar até à terceira fila de carteiras; recolhida com cuidado, a fita lá voltava para dentro da parede, sem ruído, ficando a exibir apenas aquela língua inócua. Acho que fui eu que comecei a puxar pela fita, em alguma aula em que o professor não conseguia prender a atenção, coisa vulgar, como se imagina. De início puxar pela fita era apenas um entretém para as mãos, que tinham dificuldade em permanecer quietas, só que a coisa fugiu rapidamente ao meu controlo.
Alguém percebeu as potencialidades daquela fita e começaram os pedidos para a passar para o vizinho e daí para o seguinte! Eu estava relutante em ceder aos pedidos, porque era geralmente bem comportado e porque tinha medo das consequências, mas entre rapazes de quinze ou dezasseis anos não há muita oportunidade para se fugir aos ditames do grupo; a perspectiva de ser ostracizado metia-me ainda mais medo do que a de ser apanhado em falta. Com a fita nas mãos, o Castro Lopes e o Vieira, que ficava ao lado dele, aproveitaram para escrever os seus comentáriozinhos, alguns jocosos outros mais provocadores, acerca de professores e colegas. Que me lembre não havia comentários verdadeiramente ofensivos; havia um que dizia que a Cidália era boa como o milho mas acho que a Cidália, que era uma das duas colegas, até sabia que era mesmo boa como o milho e nem se importava com o comentário. Também lá estava que o Tonecas era vesgo, o que era verdade, embora ele talvez não gostasse que se dissesse; o Tonecas era o professor de Organização Política e Administrativa da Nação. O mais atrevido dos comentários era, provavelmente, aquele onde se dizia que o Filipe Silva, que era o professor de Desenho, andava a galar a Emília, que tinha sido professora de Francês de alguns de nós no quinto ano. Isto foi sucedendo aula após aula, dia após dia, até porque a fita começou a chegar aos vizinhos à frente e atrás de mim e do Castro Lopes. Outros começaram a arranjar desculpas, pedindo autorização ao professor para ir buscar qualquer coisa à carteira do colega mas aproveitando para deixar o seu comentário na fita. Como, depois de ter feito a sua excursão pelas carteiras mais próximas da janela, a fita regressava para dentro da parede, a marosca passou sempre despercebida durante as aulas. Houve uma vez em que quase fomos descobertos porque a professora de Ciências Naturais, que dava a aula sempre sentada à secretária, de onde não conseguia ver a fita estendida, resolveu levantar-se da cadeira; em pânico, a fita foi recolhida à pressa sem ser detectada.
O escândalo tinha que estalar um dia e isso aconteceu quando o estore foi reparado; uma manhã chegámos à aula de Físico-Químicas e o estore estava a meia altura, com uma fita novinha estendida de cima a baixo. Não tardou que o professor abordasse o assunto, convocando para essa tarde, na reitoria, os alunos mais próximos da janela. A fita tinha sido estendida e tinham sido identificadas as carteiras onde ela podia chegar, que eram sete: a minha e as do Castro Lopes e do Vieira, na direcção perpendicular à parede, e ainda mais duas à frente e outras tantas atrás daquelas. Os ocupantes dessas carteiras foram considerados como potenciais autores dos escritos e nessa tarde iria descobrir-se quem eram os verdadeiros responsáveis. O que mais preocupava as autoridades escolares era o carácter supostamente ofensivo de alguns comentários; já a questão de a fita ter andado a passear parecia que perdia relevância face à gravidade do que nela fora escrito. O professor de Físico-Químicas, que foi quem nos convocou, era vice-reitor e era conhecido pelo Quebra Ponteiros, desde que tinha partido um ponteiro na cabeça de um aluno, quando este estava virado para trás durante a explicação do movimento uniformemente acelerado; é possível que o episódio tenha ou não ficado como uma demonstração prática inesquecível daquele movimento, para o aluno em causa, mas o que ficou para sempre foi a alcunha de Quebra Ponteiros.
Às duas da tarde lá estávamos os sete à porta da reitoria, prontos a enfrentar o interrogatório, que não se adivinhava fácil, dada a personalidade marcadamente policial e autoritária do Quebra Ponteiros; este preocupava-nos muito mais do que o reitor, que era um homem mais contemporizador. Nós tínhamos feito um pacto de silêncio entre todos, ao qual eu aderi por solidariedade, embora na fita não houvesse nenhum escrito da minha autoria; a verdade é que senti que não tinha alternativa, porque não conseguia imaginar a minha situação futura no liceu se viesse a denunciar algum dos meus colegas. Também nada diríamos sobre o facto de não estarem ali todos os autores de comentários; aqueles que tinham conseguido deixar a sua marca, apesar de não lhes chegar a fita à carteira. A hipótese de fuga à responsabilidade, dizendo que se poderia ter passado tudo nos intervalos, sendo os autores desconhecidos, era insustentável, porque a sala permanecia fechada à chave durante o intervalo e só era aberta quando tocava para a entrada. Não tivemos que esperar muito até que nos mandassem entrar para o gabinete do Quebra Ponteiros; ficámos em pé, em frente da
secretária onde jazia a fita, estendida a todo o comprimento e sobrando as pontas dos dois lados da secretária. Do outro lado da secretária, também em pé, estavam o reitor, o Quebra Ponteiros e o professor de Filosofia, por esta ordem, da esquerda para a direita, e era óbvio que o Quebra Ponteiros iria comandar o interrogatório. A presença do professor de Filosofia foi uma surpresa, porque não tinha qualquer cargo na reitoria e era um professor que não tinha, em geral, problemas com os alunos.
A prova material do crime era aquela tira cinzenta, profusamente decorada com escritos a azul e preto, que se estendia desde o chão de um lado da secretária até ao chão do outro lado, exibindo o seu seio nos quase dois metros que poisavam sobre a secretária; e o interrogatório começou com o Quebra Ponteiros.
— Queremos que nos digam quem escreveu na fita.
Assim, sem mais, esperava ele que começássemos ali logo a dizer “fui eu, fui eu”? Não. Certamente que já esperava que a coisa não se resolvesse com duas cantigas e, de facto, nós ficámos mudos e quedos, com os olhos postos na prova do crime. E veio a insistência, desta vez de uma forma já ameaçadora.
— Vocês vão dizer-nos quem foi que escreveu na fita, porque se não os vossos pais vão ser chamados e vão ser todos castigados.
E nós mudos, os olhos ainda e sempre fixos na fita. O interrogatório continuou nestes termos, conduzido pelo Quebra Ponteiros, durante uns dez minutos, sem resultado. A certa altura o professor de Filosofia resolveu intervir, com uma abordagem mais conciliadora, mas também não obteve respostas. A estratégia tinha então que mudar e os inquiridores resolveram passar a interrogatórios individuais. Mandaram-nos para outra sala e passaram a chamar um de cada vez; os que já tinham sido interrogados não tinham possibilidade de contactar com os que ainda estavam à espera, para que não pudessem revelar-lhes o que tinham ou não tinham dito. A ideia era que, sem apoio dos colegas, algum de nós se descosesse e permitisse começar a perceber quem era mais responsável pelos comentários.
A nova estratégia correu mal desde o princípio, porque eu fui o primeiro a ser chamado, na lógica de que era quem estava mais próximo da janela e, portanto, tudo teria passado por mim. Quando me chamaram lá fui para o interrogatório, inseguro sobre o que iria fazer e como iria ser capaz de me aguentar fiel ao pacto de silêncio. A primeira pergunta foi directa.
— Tu escreveste na fita?
— Não Soutor.
Não consegui evitar responder; era mais forte do que eu. Inevitável, a segunda pergunta foi uma afirmação.
— Mas sabes quem escreveu.
Aí já consegui ficar calado, porque afinal não se tratava de uma pergunta, portanto não tinha que responder. Mesmo quando o Quebra Ponteiros me pediu a confirmação de que eu sabia quem escreveu, não disse nada. Isto durou pouco mais de cinco minutos e terminou com uma última pergunta.
— Passaste a fita?
— Passei, Soutor.
Para quê negar uma coisa evidente?
— Vai lá para fora, mas isto não está terminado; depois vamos dizer-te qual é o castigo que vais apanhar.
Chamaram a seguir o Castro Lopes, dentro da mesma lógica de proximidade à janela, e o que se passou lá dentro só sei como ele contou. Parece que o confrontaram logo com uma situação destinada a fazê-lo quebrar.
— O Ferreira já confessou que escreveu na fita e também disse que tu foste um dos autores.
Acontece que todos sabiam que eu não tinha escrito nada e que, mesmo que não me aguentasse no interrogatório individual, nunca ia confessar uma coisa que não tinha feito, por isso o Castro Lopes percebeu que a história da confissão era bluff e era provável que eu não tivesse dito nada. Ele sentiu que o pacto de silêncio continuava em vigor e não teve grande dificuldade em evitar confessar ou acusar os colegas. Não sei pormenores exactos de como se passou o seu interrogatório mas a verdade é que no fim os professores continuavam a não saber aquilo que queriam. Com os outros cinco repetiu-se a estratégia de interrogatório, sempre afirmando que os colegas já haviam dito tudo e que só estavam ali para confirmar. Nenhum acreditou nem cedeu à chantagem, pelo que a tarde de interrogatório redundou num fracasso completo. Por volta das cinco e meia o Quebra Ponteiros apareceu para anunciar os castigos, iguais para todos; iríamos ter uma falta por mau comportamento, registada no livro de ponto, e os nossos pais iriam ser chamados para lhes ser apresentada queixa sobre o nosso comportamento.
Não fui para casa sossegado, porque nunca tinha tido uma falta por mau comportamento e estava uma bocado receoso quanto à forma como o meu pai iria reagir quando fosse chamado. Achei que o melhor era tomar eu a iniciativa de lhe contar tudo, explicando o dilema em que me tinha encontrado que, na prática, me tinha forçado a alinhar com os colegas, mas que me tinha limitado a passar a fita, sem escrever qualquer comentário. Também lhe expliquei que não podia acusar os colegas e que, por isso, tinha que partilhar o castigo deles. O meu pai ainda ralhou mas compreendeu e a coisa ficou por aí. Quando foi ao liceu repetiu aquilo que eu já tinha dito e foi tudo. Não sei como as coisas se passaram nas casas dos outros, o certo é que, mesmo após as entrevistas com os pais, nada ficou mais claro quanto aos autores dos escritos. Uma única falta por mau comportamento durante o ano funcionava sobretudo como aviso e não tinha consequências sérias; as coisas complicavam-se se houvesse uma segunda falta, que podia levar à perda de ano, por isso todos andámos na linha até ao fim do ano, para não criar oportunidades para uma segunda falta.

Embora esta história seja inspirada em factos reais, afasta-se significativamente deles e todas as personagens são fictícias.

2 responses to “A fita do estore

  1. Noely Montes

    Deliciosa de ler, parabéns, eis aí uma outra vocação escondida!

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