A Construção Europeia – Uma Evolução Natural

Os políticos Europeus pensam que estão a construir a Europa. Estão, mas não tanto como pensam. Os cidadãos Europeus acham que devem pronunciar-se sobre a construção Europeia. Devem, mas a sua opinião é menos importante do que julgam.

O que se passa é que a Europa vai seguir o seu caminho, quase independente da vontade dos seus políticos e dos seus cidadãos; se não tivesse haviso Maastricht haveria forçosamente outro tratado, assinado aqui ou ali, dez anos mais cedo ou mais tarde, mas haveria, certamente, um instrumento de construção Europeia. E os políticos e os cidadãos não fazem mais do que, numa pequena medida, influenciar os modos ou os momentos.

Não há nisto determinismo mas há um sentido da história, ou melhor da evolução. Desde que o Mundo é Mundo que se desenvolve um processo evolutivo baseado em três premissas:

  1. Na multiplicação dos seres são possíveis variações aleatórias.
  2. Os mutantes competem entre si por um lugar num eco-sistema de recursos limitados.
  3. Existe um processo de selecção favorável aos mutantes mais bem adaptados.

Se somos capazes de admitir que o processo evolutivo foi responsável pelo aparecimento de seres gradualmente mais complexos e mais eficazes, se sabemos que foi esse mesmo processo evolutivo o responsável por que seres unicelulares se agregassem dando origem a indivíduos complexos em que cada célula está integrada numa hierarquia de funções, não seremos capazes de compreender que o mesmo processo foi responsável pela agremiação dos indivíduos em comunidades organizadas porque estas, actuando em conjunto, se revelam mais eficazes na competição pelos recursos disponíveis?

O mesmo processo evolutivo é o verdadeiro responsável pela construção Europeia, porque hoje as comunidades mais eficazes têm a dimensão dos continentes. Não é de todo garantido que qualquer comunidade seja votada ao sucesso; os exemplos existem e todo o processo evolutivo está recheado de mutantes que foram verdadeiros fracassos ou cujo sucesso se deu por um período limitado; mas o sentido da evolução é sempre o mesmo.

O Mundo actual está povoado com seres de três níveis distintos: Os seres uni-celulares, os indivíduos complexos, pluri-celulares e as comunidades de indivíduos. O que distingue um ser de outro é o seu património de informação, que é diferente do do seu semelhante; esta informação encontra-se armazenada no código genético, no cérebro ou no património de uma comunidade. Daí os três níveis de seres.

Sabemos como uma comunidade de formigas actua frequentemente como se se tratasse de um único ser, como sabemos como é importante o património cultural de para cimentar a união de um povo. Poe enquanto, a consideração de comunidades humanas como seres individualizados faz pouco sentido porque os indivíduos podem mudar-se de uma comunidade para outra e, acima de tudo, porque o património de informação característico de cada comunidade se encontra armazenado de forma pouco eficaz. Mas as coisas estão a mudar.

Cada vez mais o património de informação é um património da humanidade, acessível instantaneamente em qualquer ponto do Globo. Caminhamos a passos largos para a globalização e não é porque se pôde assistir em directo à Guerra do Golfo. É porque estamos a caminho de constituir um ser planetário, cujo cérebro se encontra disperso pelo planeta, com informação circulando através de neurónios de fibra óptica e com novas sinapses a cada nova ligação na Internet. O bébé aprende depressa.

Braga, 26 de Maio de 1997
J. Borges de Almeida

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