A evolução tecnológica e a evolução das espécies

Deve-se a Charles Darwin a teoria de que as diferentes espécies de seres vivos evoluiram naturalmente por um processo duplo, de alterações aleatórias e de selecção natural. Não é muito claro qual o mecanismo responsável por provocar alterações no código genético, alterações que conduzem a indivíduos de características ligeiramente diferentes dos seus progenitores e que, se na maioria dos casos se traduzem numa redução das suas capacidades, outras vezes poderão produzir indivíduos mais aptos a sobreviver e que se superiorizam relativamente aos seus semelhantes.

A característica aleatória das alterações leva, inevitàvelmente, a que a maioria delas seja prejudicial e que apenas uma ínfima percentagem das alterações introduzidas acabe por se revelar benéfica; conhecemos sobejamente as malformações genéticas da espécie humana, que consideramos como patologias, e não ouvimos falar de alterações genéticas que acabem por beneficiar o indivíduo. Por outro lado, o tempo e o número de indivíduos disponíveis para estas experiências da natureza são imensos e podemos esperar que, de quando em quando, uma das alterações produza um indivíduo mais capaz.

O processo de selecção natural é responsável por eliminar aquelas alterações que produzam indivíduos menos adaptados, já que estes não são capazes de sobreviver aos rigores da luta pela vida e são, provàvelmente, rejeitados pelos companheiros de acasalamento, impedindo assim a propagação da alteração. A separação de sexos é, por outra razão, uma invenção extremamente importante da natureza porque, ao exigir que dois indivíduos se unam para procriar, aumentou enormemente a probabilidade de ocorrência de variações.

A espécie humana, diferente em muitos aspectos das que a precederam e das que com ela coexistem, é a única que viola as regras da selecção natural, ao cuidar dos seus doentes e ao estabelecer códigos éticos e morais. Seríamos tentados a concluir que, ao dar condições de subsistência e de procriação a indivíduos incapazes de, por si só, se manterem e reproduzirem, a sociedade estaria a ameaçar de morte a própria espécie humana. Mas o animal homem é verdadeiramente diferente dos outros animais e estas conclusões não se lhe aplicam.

A sobrevivência de um indivíduo no seio da sua espécie e no confronto com as demais exige, para além de aptidões físicas, o acesso a uma quantidade de informação apreciável e a capacidade de processar e de tomar decisões relativamente a nova informação contìnuamente captada pelos sentidos. Podemos fàcilmente aperceber-nos de que a capacidade de lançar mão de armas, ainda que simples pedras ou paus, é uma forma eficaz de superar deficiências físicas. Mais importante do que isso, no entanto, é a ciência ou a informação sobre formas de actuar nas mais variadas circunstâncias, permitindo decisões eficazes e rápidas. Trata-se, de facto, do instinto e da aprendizagem.

A primeira forma que a natureza encontrou para passar informação de uma geração para outra resumia-se, e não era pouco, ao código genético. Neste encontra-se toda a informação relativa às características fisiológicas do indivíduo, e provàvelmente alguma informação relativa a formas de comportamento primário a que chamamos instinto. O ensaio de gestos, de atitudes ou a emissão de sons, marcaram o início da comunicação entre indivíduos e podemos perceber que a selecção natural tenha funcionado no sentido de levar os indivíduos jovens a permanecer junto dos seus progenitores por algum tempo, para deles receberem informação importante para a sobrevivência; esta informação não constava do código genético, pois era transmitida de pais para filhos durante a educação destes.

Apercebemo-nos da imensa capacidade de variações que foi introduzida ao nível dos comportamentos e de como as diferentes experiências vividas pelos adultos lhes permitiram transmitir aos seus descendentes informações que os pudessem guindar a situações de superioridade sobre os seus semelhantes e sobre as outras espécies; algumas destas variações acabariam por afectar o processo de selcção natural e marcar o aparecimento de raças dentro da mesma espécie. Não é de estranhar que neste processo a natureza tenha descoberto a utilidade da vida em grupo, seja ele a família, a manada ou outros grupos sociais; a actuação em grupo podia permitir uma superioridade face aos adversários. Os grupos sociais definem geralmente algum tipo de hierarquia, com vista à sua funcionalidade.

Os grupos com uma hierarquia deixam de actuar como indivíduos isolados mas passam a apresentar também uma lógica de grupo, que de alguma forma permite encará-los no seu conjunto como um único indivíduo de um nível mais complexo. É sabido que o comportamento do grupo apresenta, em certas espécies, um sentido e uma intenção não perceptíveis pela observação dos indivíduos tomados de per se; as formigas, nomeadamente a formiga soldado, e as abelhas constituem exemplos flagrantes desta necessidade de olhar para o todo para se perceber a intenção da actuação. Nestes casos faz sentido considerar um indivíduo de um nível mais complexo, do qual os indivíduos elementares são “células”. A consideração destes indivíduos de segundo nível esbarra sobretudo com a concepção tradicional de que um indivíduo não pode ser destacado em partes autónomas; estamos habituados a que as células constituintes de um indivíduo estejam fìsicamente unidas e a consideração de um indivíduo com elementos fìsicamente distintos é contra natura. Por outro lado, é verdade que os diferentes elementos não são autónomos e que a sua existência fora da comunidade é inviável. Para evitar confusões e porque parece ser uma palavra adequada, chamarei a este segundo nível do indivíduo o organismo social.

Na espécie humana verifica-se também este comportamento gregário, primeiro ao nível da família ou do clan, mas estendendo-se mais tarde ao nível nacional e evoluindo talvez para o nível do continente ou mesmo planetário. O comportamento gregário, e o conceito associado de organismo social como um indivíduo de segundo nível, permitem compreender o cuidado com os deficientes; trata-se nesse caso de um mecanismo de preservação de uma parte do organismo social, com analogias nos mecanismos fisiológicos de auto-regeneração em casos de doença. Pode admitir-se que o organismo social, detectando que um dos seus órgãos não funciona devidamente, actua procurando corrigi-lo.

Mencionei a inportância crucial da comunicação entre indivíduos para a sua superiorização e, consequentemente, para a evolução das espécies. Alguns primatas desenvolveram, a certa altura da evolução, uma comunicação de tipo inteiramente novo; perceberemos que esse desenvolvimento não poderia ter surgido em nenhuma das outras espécies existentes e também que a superioridade da espécie que desenvolveu esse tipo de comunicação se tornou de tal forma marcante que lhe permitiu, até hoje, o domínio sobre todas as outras espécies.

A passagem de informação entre gerações através do código genético tornou-se demasiado limitada para seres cada vez mais evoluídos; apesar de existir uma enorme quantidade de informação armazenada nos genes, a crescente complexidade fisiológica e comportamental exigiu um outro mecanismo de transmissão da informação e levou ao aparecimento das linguagens de comunicação e à educação dos jovens pelos seus progenitores. Ao criar este mecanismo, a natureza alargou a possibilidade de surgimento de variações para níveis anteriormente inexistentes. Este novo mecanismo apresentava, no entanto, uma limitação que, a prazo, a natureza haveria de resolver. A comunicação é lenta e o tempo de aprendizagem não pode ultrapassar uma pequana fracção do tempo de vida, sob pena de os indivíduos não chegarem a pôr em prática os conhecimentos adquiridos.

Naturalmente que a possibilidade de transmissão de informação aumenta se cada indivíduo não precisar de armazenar em si toda a que vai necessitar durante a sua vida, mas puder ir buscá-la a um armazém exterior na medida das suas necessidades. Uma das espécies primatas desenvolveu, a certa altura da sua evolução, a capacidade de colocar representações do mundo exterior sobre a rocha; estava, deste modo, a dar os primeiros passos na criação de uma memória colectiva, onde a informação era preservada ao longo de múltiplas gerações e podia ser acedida e seleccionada pelos indivíduos que dela necessitassem. Esta capacidade só se tornou verdadeiramente importante e reveladora de uma superioridade em relação às demais espécies com a invenção da escrita. Agora a evolução, em vez de privilegiar a capacidade de armazenamento da informação, podia passar a privelegiar a capacidade do seu processamento, ou seja, a inteligência.

Esta evolução pressupôs o desenvolvimento anterior de uma capacidade de fabrico de ferramentas, que se iniciou com as armas, e do seu manuseamento. Das espécies existentes, apenas os primatas dispunham de características fisiológicas que permitissem o fabrico e manuseamento de ferramentas e, por isso, nenhuma outra espécie poderia ter sofrido desenvolvimento semelhante.

Dentro desta ordem de ideias, a postura erecta de alguns primatas (homo erectus) poderá ter aparecido como forma de facilitar a manipulação, como armas, de utensílios não fabricados, por exemplo pedras e paus que encontrava no chão ou partia das árvores. Uma dextreza e especialização crescentes do uso das mãos, terão levado ao fabrico de utensílios mais sofisticados do que os naturais, permitindo, a partir de certo ponto, deixar marcas no ambiente e criando uma nova via de comunicação entre os indivíduos, não limitada à presença simultânea de dois indivíduos no mesmo espaço. A evolução da arte rupestre, meramente representativa, para um sistema codificado de escrita, permitiu armazenar enormes quantidades de informação, disponível em qualquer altura, e seleccionável. O cérebro passou a ter, cada vez mais, um papel processador da informação em deterimento do seu papel de armazenador da informação.

Este processo evolutivo não parou, certamente, aqui, e não há qualquer razão para supôr que se tenha detido nos dias de hoje. Podemos imaginar cada novo aperfeiçoamento numa arma, de facto todo e qualquer avanço tecnológico, como mais uma tentativa de superiorização em relação aos semelhantes e em relação às outras raças. Mas lembremos que cedo, mesmo antes da invenção das primeiras armas, deve ter-se iniciado a tendência gregária no homo, como em outras espécies. Desta forma é impossível entender a evolução do homem considerando cada indivíduo de per se; é necessário olhar sempre para a família e para o clan; eram estes organismos sociais que lutavam pela supremacia, ao mesmo tempo que se mantinha a luta de cada homem pela sua afirmação individual.

No mundo de hoje assistimos a uma nova experiência da natureza, capaz de uma revolução semelhante à da escrita. Fala-se diàriamente na globalização da economia e da informação; diz-se que a aldeia global está aqui já. Qualquer destes conceitos pretende traduzir que o organismo social se estendeu a todo o planeta e que qualquer homem não é mais independente dos outros homens. Só por si, esta extensão à escala planetária do organismo social humano levanta algumas questões sérias do ponto de vista evolutivo; é que a evolução das espécies se baseou sempre num processo de selecção natural, que foi eficaz ao seleccionar os mais aptos e impedir a proliferação dos menos aptos. Esse processo continuou a ser eficaz quando os indivíduos se associaram em organismos sociais, porque continuou a haver competição entre oragnismos sociais e, portanto, a ser possível distinguir aptos de menos aptos; não se compreende fàcilmente a que competição fica sujeito um organismo social planetário e, não havendo competição, não faz sentido a selecção. Será lícito concluir que as variações continuarão a dar-se e, não sujeitas a um processo de selecção, serão assimiladas pelo organismo social independentemente do seu valor?

A questão central não é a da globalização do organismo social; está, de facto, a passar-se algo de novo. O problema da natureza foi sempre o de passar, entre gerações, a informação necessária à subsistência. Em risco de se esgotar a capacidade do código genético, foi inventada a linguagem; para aumentar a capacidade desta foi inventada a escrita. No entanto existe um limite para a quantidade de informação que cada indivíduo pode receber, lendo. A subsistência dos organismos sociais exige largas trocas de informação entre os indivíduos, para as quais a linguagem escrita se revela cada vez mais limitada. A novidade, a verdadeira revolução a que assistimos, é a da criação de canais de transporte e meios de processamento da informação tão rápidos, que a informação necessária em cada instante poderá passar a estar disponível imediatamente. Cada novo “hyperlink” estabelecido na rede INTERNET é como uma sinapse de um cérebro planetário, que se desenvolve e aprende a um ritmo alucinante; este desenvolvimento, embora resultante da vontade dos homens, é independente da vontade de cada homem, ou mesmo de todos os homens tomados em conjunto. A natureza deu mais um passo na evolução e está a fazer nascer um ente planetário cuja lógica não pode senão escapar-nos.

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