Em tempos expliquei aqui porque sou incapaz de jogar no euromilhões, invocando quer o valor espectável de lucro, que é negativo, quer o caracter anti-social de um jogo que retira dinheiro a muitos para dar apenas a uns poucos. Esta questão vem frequentemente à baila em conversas e não é raro eu sugerir ao meu interlocutor que, se tem tanta fé neste jogo, arrisque apostar a sequência 1, 2, 3, 4, 5 e estrelas 1, 2. A resposta é sempre aquela que se espera: que esta sequência é tão improvável que ninguém se atreve a arriscar nela. Mas a verdade é que é uma sequência tão improvável como outra qualquer; vamos a um exemplo, para ver se convenço os incrédulos.
Suponhamos que eu aposto naquela sequência, que me dizem improvável, e que um meu amigo, vou chamar-lhe Paulo, aposta 6, 22, 27, 35, 43 e estrelas 3 e 7. Na altura do sorteio estamos ambos na expectativa da saída das bolas; eu fico todo satisfeito se a primeira bola for um numero até 5 e o Paulo deseja que seja um dos cinco números que apostou (6, 22, 27, 35, 43). Em qualquer caso há 5 bolas, das 50 que servem a cada um de nós, só que não são as mesmas para os dois; quer dizer, ambos temos uma probabilidade de 5/50 de que saia uma bola que nos sirva.
Se a primeira bola foi do meu agrado não foi do agrado do Paulo e vice-versa, no entanto se a primeira bola serviu a um de nós, para que a segunda bola também sirva tem que ser um dos quatro números que restam e isto vale para qualquer das sequências. Como há 49 bolas na esfera, a probabilidade é agora de 4/49. Para as bolas seguintes as probabilidades são, respectivamente, 3/48, 2/47 e 1/46. Depois seguem-se as estrelas, mas agora há só 2 números para acertar, com 9 bolas, por isso as probabilidades são 2/9 e 1/8.
Repare-se que estes cálculos funcionaram tanto para mim como para o Paulo e seriam os mesmos para qualquer outra aposta. A probabilidade final de acertar nos 5 números e 2 estrelas é o produto de todas as probabilidades calculadas atrás, ou seja cerca de 1 em 76 milhões. A razão porque há frequentemente um ou mais apostadores a acertar é, precisamente, porque há mais de 76 milhões de apostadores. Para uma pessoa que faça uma aposta por semana, existe uma razoável probabilidade de acertar ao fim de 76 milhões de semanas ou 1 milhão 466 mil anos!
Mas isto tudo são argumentos racionais e o que leva as pessoas a jogar são motivações para além da razão. O triste é que quanto mais apertadas estão mais as pessoas jogam.

