Tag Archives: inteligência

O Livro da Consciência

A notícia que me chamou a atenção nos jornais de hoje foi o lançamento de O Livro da Consciência de António Damásio, através de um longo texto no Público. Damásio fala-nos da consciência humana usando uma linguagem de imagens mentais, mesmo para o pensamento abstracto. Também nos diz que consciência, com diferentes níveis, tem de existir noutras espécies. Para mim é mais natural falar de informação do que de imagens mentais, mas estou essencialmente de acordo com Damásio e só espero ter oportunidade de ler o livro para ver até que ponto ideias que venho desenvolvendo há anos encontram paralelo no pensar deste especialista.

Consciência, inteligência, pensamento abstracto, são designações diversas para o que julgo ser o processamento de informação no nosso cérebro. Penso que o cérebro humano evoluiu por um processo de selecção natural e que a evolução da inteligência acompanhou a do cérebro. Houve, no entanto, um ponto culminante que separou a evolução do cérebro humano da das outras espécies, que foi o início de passagem de informação através de imagens rupestres, primeiro, e da escrita, depois. Atrevo-me a pensar que o processo evolutivo não parou e que a informação disponível instantaneamente, através da internet, marca outro ponto singular no processo. O funcionamento da internet é uma mímica das sinapses entre neurónios, só que a uma escala planetária; é a isso que chamo Cérebro do Planeta.

Anúncios

Deixe um comentário

Filed under filosofia

A internet não estupidifica

A entrevista de Don Tapscott, que aparece hoje no Público, deixa claro que a internet não está a tornar os jovens mais estúpidos e que o tempo que eles gastam on-line é retirado à televisão, muito mais do que aos amigos.

Tenho dito em vários locais e já escrevi aqui, que vejo a internet como uma inteligência planetária em emergência, que até designei por Cérebro do Planeta. Quando analisamos o que de bom e de mau se troca na internet podemos ou não ficar chocados com o balanço mas se fizermos um pouco de introspecção, relativamente aos nossos próprios processos mentais, não vamos encontrar muito lixo até à formação de uma ideia final?

A internet faz parte do processo evolutivo global, o mesmo que fez aparecer sobre a Terra o homo sapiens; é, em certa medida, a mente de um ser de nível superior, que se estende a todo o planeta. Não temos que ficar intimidados com a ideia deste ser global, porque ele não se vai transformar num big brother nem vai tolher o nosso livre arbítrio.

Deixe um comentário

Filed under sociedade

40 anos de Inteligência Planetária

Head 6A propósito dos 40 anos da Internet, que se celebrarão proximamente, volto ao tema que já aqui desenvolvi algumas vezes: a emergência de uma inteligência planetária. Para ver os artigos anteriores basta seguir a tag evolução. Em resumo, a ideia de uma inteligência planetária assenta nos seguintes conceitos:

  1. A espécie humana distingue-se das restantes pela capacidade de pasar informação entre gerações fora do código genético e da educação dos jovens.
  2. Os desenvolvimentos tecnológicos seriam percebidos como processos de selecção natural por seres extra-planetários.
  3. Os “links” da Internet mimetizam as sinapses do cérebro e permitem olhar para toda a rede como um cérebro de abrangência planetária.

Não se julgue, no entanto, que desvalorizo o trabalho de Leonard Kleinrock como inventor da Internet; apenas penso que um desenvolvimento que se revela fundamental para a humanidade acabaria por acontecer mais cedo ou mais tarde.

Deixe um comentário

Filed under filosofia

Como nos tornámos humanos

Dois artigos recentes na revista Science dizem que foram necessárias as disputas entre grupos de caçadores e de recolectores, assim como um aumento substancial do número de humanos anatomicamente modernos para que se desenvolvessem várias características culturais que nos tornam únicos. Não li os artigos originais, tão só a notícia do Público, mas estas conclusões estão em linha com aquilo que penso há muito e que já tem sido objecto de alguns dos artigos neste blog.

A partir de certa dimensão, os grupos passam a ter um comportamento de seres de nível superior, um pouco como as plantas e animais são agregações de células. Os grupos passam a estar sujeitos a mecanismos de selecção natural e as características culturais da espécie humana podem ser consideradas como resultado da selecção natural, que foi fazendo desaparecer as características menos favoráveis à sobrevivência dos grupos. Nada leva a supor que o processo esteja termonado, sendo de esperar que, se levou 70 mil anos a chegar ao estado actual, os próximos 70 mil anos trarão mudanças não menos significativas. 

Não haverá nenhum voluntário para verificar esta previsão na altura própria?

1 Comentário

Filed under filosofia

Transformados em máquinas

As actividades que enobrecem a espécie humana são aquelas que não podem, de forma alguma, ser desempenhadas por máquinas. Por outro lado, considero profundamente degradante o exercício de qualquer actividade que pudesse ser executada, de forma mais rápida e eficiente, por uma máquina. Vamos a coisas concretas.

Uma obra de arte ou uma peça de artesanato são valorizadas, não especialmente pela sua beleza mas sobretudo pelo facto de serem peças únicas que uma máquina não poderia produzir. No exercício de actividade intelectual, que é aquele que me interessa agora explorar, considero degradantes as situações em que pessoas são colocadas a executar tarefas que podem hoje ser feitas, com toda a perfeição, por computadores. Isto quer dizer que várias tarefas, que seriam consideradas caracteristicamente humanas há alguns anos, deixaram de o ser com o avanço da informática. As pessoas devem ser retiradas de tarefas desse tipo, para que a sua inteligência seja usada com mais proveito. Quero analisar com algum pormenor dois tipos de situações que vivi na minha carreira, que se transformaram em tarefas degradantes nos últimos anos mas continuam, indevidamente, a ser exercidas por pessoas. 

A primeira situação vive-se nos júris, sejam eles júris para concursos académicos, para selecção de pessoas ou compra de bens. Para que se perceba, nos júris de concursos académicos é pedido aos candidatos que forneçam um currículo detalhado mas, devido à legislação actual e ao número crescente de recursos para tribunais, o júri faz pouco mais do que aplicar uma grelha de critérios e uma fórmula. Se a legislação se mantiver, penso que os candidatos devem passar a ser convidados a preencher uma folha de cálculo, onde constem classificações obtidas, número de publicações e todos os restantes elementos de apreciação. As folhas de cálculo de todos os candidatos podem então ser comparadas pelo computador que ditará o vencedor; isto evitará pagar ordenados de professor catedrático para uma tarefa simples, que o computador desempenha na perfeição. Julgo que seria mais sensato alterar a legislação no sentido de permitir que os candidatos pudessem suscitar a suspeita relativamente à isenção de qualquer membro do júri mas que, uma vez constituído este, a sua deliberação fosse soberana, não sendo sequer divulgados os procedimentos seguidos na deliberação; infelizmente não me parece que caminhemos nesta direcção.

Uma situação diferente, mas não menos preocupante, vive-se nos simpósio, conferências e, pior que tudo, em aulas. O problema resulta do uso e abuso de ferramentas de apresentação como o Power Point que, sendo ferramentas extremaente úteis, que podem ajudar a tornar atraente uma exposição maçuda, também podem levar a uma completa alienação do apresentador. Eu pergunto que sentido faz uma apresentação que se resume a uma sequência de projecções na tela que o apresentador se limita a ler. O mesmo efeito, sem tirar nem pôr, poderia ser obtido com dispensa completa do apresentador e daqui conclua-se qual será o resultado se a coisa se passa numa aula.

Ainda a este propósito mas afastando-me um pouco do tema, ocorre-me falar do guia de instruções para os professores que têm que vigiar exames de aferição. O guia, com 26 páginas, contém todas as frases que os professores devem pronunciar e todos os comportamentos que devem ter, não lhes sendo permitido afastar-se um milímetro do estipulado. A leitura do guia poderia ser feita por qualquer pessoa ou mesmo por uma ma´quina. O que não poderia ser deixado a uma máquina é a vigilância para evitar cópias, mas isso é actividade meramente policial. Para um professor, ser tratado desta forma é insultuoso. A este propósito vale a pena ler a crónica de António Barreto no Público de 24 de Maio.

Deixe um comentário

Filed under sociedade

Os novos motores de busca

Já aqui escrevi que considero como factor diferenciador da espécie humana em relação às restantes o facto de ter conseguido passar informação entre gerações fora do código genético e da aprendizagem durante a fase de crescimento. Esta informação adicional começou por ter a forma pictórica para passar depois a informação escrita. Nos últimos tempos deu-se um salto na possibilidade de acesso a quantidades imensas de informação, de forma quase instantânea, através da internet.

Os processos mentais, por complexos e desconhecidos que sejam para nós, passam por ligações de neurónios, através das quais circulam impulsos eléctricos. Para mim existe uma semelhança muito grande com o estabelecimento de ligações na internet,Cérebro do planeta com passagem de informação através dessas ligações; é como se os neurónios fossem a internet do nosso cérebro. Agora os motores de busca, que já nos maravilhavam, estão a ponto de dar um salto para uma nova geração, passando a responder a perguntas em vez de apresentarem apenas uma lista de páginas para consultar. Os motores de busca passarão a consultar milhões de páginas para responder directamente às nossas perguntas. 

O raciocínio anterior tem uma consequência inevitável: está em formação uma inteligência de nível planetário e isso está a acontecer por um processo evolutivo natural. Esta evolução é impeditiva do livre arbítrio de cada um de nós? Penso que não; penso que contribuimos todos para essa inteligência planetária sem perdermos nenhuma parcela da nossa liberdade individual.

Deixe um comentário

Filed under filosofia

A Falsa Medida do Homem

f7a2af3a13Esta é uma tradução da edição revista e aumentada de The Mismeasure of Man, publicada em 1996. A primeira edição tinha sido publicada em 1981.

Ao longo de mais de 470 páginas, Gould desmonta toda a construção do Quociente de Inteligência (QI) e mostra que, deliberadamente ou de boa fé, este tem sido usado para justificar o status quo no que se refere a racismo, à superioridade dos povos de umas nações em relação aos de outras, dos ricos em relação aos pobres e mesmo de homens em relação a mulheres. A utilização do QI para hierarquização das pessoas admite que “… a inteligência humana pode ser concebida como uma grandeza (mensurável por um único valor numérico); pode ser distribuída de acordo com uma escala hierárquica; é de hereditariedade elevada; e efectivamente imutável. Se qualquer um destes pressupostos não puder ser verificado, toda a argumentação cai por terra…”

O livro é fascinante e mostra como os testes de inteligência, inicialmente criados por Binet para orientar a educação de crianças, foram postos ao serviço da política, sobretudo nos Estados Unidos. O texto é, por vezes, repetitivo; os mesmos argumentos são apresentados repetidas vezes, o que pode tornar-se cansativo. A tradução não é impecável mas não compromete a leitura.

1 Comentário

Filed under Uncategorized