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Licenciaturas relâmpago

É legítimo obter um diploma de licenciatura fazendo apenas quatro exames e adquirindo créditos para todas as outras disciplinas com base em equivalências concedidas em consideração da experiência profissional anterior? É legítimo mas, quando a universidade é uma universidade privada e o estudante é um político, são inevitáveis as suspeitas de favorecimento. A verdade é que, por todo o mundo, é possível obter diplomas comprados, sem nunca fazer qualquer exame ou frequentar aulas, sendo certo que todos os diplomas carregam o prestígio, ou a falta dele, da universidade que os passa; e o prestígio consegue-se através de todo um historial de seriedade obtido ao longo dos anos. Na minha opinião os casos recentes vindos a público na sociedade portuguesa contribuem para o desprestígio das respectivas universidades e dos estudantes que recorreram ao estratagema.

Há pouco tempo assisti às provas de doutoramento, numa universidade pública, de alguém que não era detentor de licenciatura. A pessoa em causa tem dezenas de anos de trabalho profissional e científico na área em que veio a doutorar-se, tem muitos livros publicados e escreveu uma tese, durante alguns anos, com orientação científica; o júri do doutoramento era constituído por investigadores de grande prestígio, que foram unânimes em elogiar o trabalho realizado. Este caso serve de exemplo para a forma como uma universidade prestigiada lida com a validação do trabalho profissional para fins académicos, que é totalmente distinta dos diplomas relâmpago.

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Sobre a liberdade no Dia da Liberdade

Este ano a Associação 25 de Abril resolveu não participar nas cerimónias oficiais do 25 de Abril e, em solidariedade, também Mário Soares e Manuel Alegre decidiram não ir à Assembleia da República neste dia. Fizeram bem ou mal, eles o saberão e fizeram uso do direito de recusar o convite para uma celebração; o facto de poderem fazê-lo e de poderem dizer porque o fazem deverá ser suficiente para provar que existe, de facto, liberdade em Portugal.

Alegadamente, a política seguida pelo governo actual não respeita os ideais do 25 de Abril, mas quem detém a competência para julgar o que está ou não de acordo com os ideais da revolução? O mais que poderão dizer aqueles cidadãos é que esta política não está de acordo com os seus próprio ideais. Também não está de acordo com os meus ideais, já agora, e atrevo-me a pensar que até nem está de acordo com os ideais do Primeiro Ministro. O idealismo tem de submeter-se ao realismo, quando o que está em causa são as necessidades básicas.

O idealismo dos políticos que governaram Portugal desde 1974 não está isento de responsabilidade na situação que vivemos hoje, convém não esquecer, o que não significa menos respeito e consideração por aqueles que nos restituíram a liberdade. Estou agradecido aos capitães de Abril, ao Dr. Mário Soares e ao Manuel Alegre, mas temos democracia, felizmente, e é ao governo eleito que compete conduzir a política.

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Paul Krugman desiludiu a oposição

A vinda de Paul Krugman a Lisboa era esperada ansiosamente pela oposição porque se trata de um economista de renome que se tem manifestado contra o excesso de austeridade. Acontece que o Governo fez o seu trabalho e reuniu-se com Krugman antes de este aparecer em público e, seja o que for que se tenha passado nesses encontros, a verdade é que aquele economista apareceu a afirmar que “não faria as coisas de forma muito diferente daquilo que está a ser feito em Porugal” e que as verdadeiras opções são tomadas em Berlim. Balde de água fria para a oposição!

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O declínio de Portugal

É o título que abre hoje todos os noticiários e primeiras páginas dos jornais: Presidente do Parlamento Europeu diz que o futuro de Portugal é “o declínio”. Martin Schulz referia-se ao recente apelo do Primeiro Ministro em Angola para que este país invista em Portugal, mas estas declarações devem ser enquadradas no contexto geral da entrevista e, parece-me a mim, o entrevistado estava apenas a dar um exemplo do recurso a investimentos de países que não respeitam direitos humanos, não deixando de mencionar o caso dos investimentos chineses, o que encerra uma crítica implícita a Angela Merkel.

É compreensível que o presidente de uma instituição parlamentar, que é sede da democracia, se preocupe com a “falta de escrúpulos” dos governantes quando fecham os olhos à situação dos direitos humanos em países com os quais se relacionam. Ser governante implica pensar e actuar em benefício dos governados e acredito que políticos eminentemente democráticos se vejam obrigados a engolir muitos sapos nestas situações, mas o mundo real está muito longe do ideal e as relações económicas com governos não democráticos não são de agora e têm sido indispensáveis, basta pensar, por exemplo, a quem compramos petróleo.

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Não pagar as dívidas não é opção

Não entendo, de todo, como pode alguém, minimamente inteligente, defender que Portugal deixe de pagar a sua dívida externa, independentemente das justificações que sejam dadas. Já para não falar na quebra de compromissos assumidos por governos legítimos, portanto compromissos de toda a população, o efeito imediato de uma declaração de não pagamento fecharia imediatamente a torneira do crédito, o que significaria que o Estado deixaria de ter dinheiro para pagar fosse o que fosse: salários, hospitais, escolas, polícia, tribunais… Imediatamente a seguir seríamos forçados a sair do Euro e a voltar ao Escudo, profundamente desvalorizado, tornando muito mais caros todos os bens importados. Mas há mais.

Para comprar fosse o que fosse no exterior teríamos que fazer pagamento antecipado, por não termos crédito; os bens produzidos no país não sofreriam um encarecimento directo mas seriam afectados indirectamente, já que estão dependentes dos preços dos combustíveis e de muitas outras importações; as saídas de cidadãos para o estrangeiro tornar-se-iam não só caras como difíceis.

Uma saída do Euro é uma possibilidade, desde que seja programada e que o país respeite os seus compromissos internacionais, mas nunca de forma atabalhoada.

Já perceberam que isto vem a propósito das declarações do vice-presidente da bancada parlamentar do PS, Pedro Nuno Santos, profundamente irresponsáveis e reveladoras de uma falta de qualidade da pessoa em causa, que a torna perfeitamente indigna do lugar que ocupa. Ainda gostava de ver os nossos parlamentares sujeitos a um exame de competências e conhecimentos, para perceber a miséria que por ali vai.

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A jangada de pedra

O título foi inventado por Saramago para uma ficção em que a Península Ibérica se separa fisicamente da Europa mas o conceito que apresento aqui é diferente. E se Portugal e Espanha entendessem que têm mais interesses em comum do que a separá-los e resolvessem unir-se numa Federação Ibérica, com um único chefe de estado e um governo central, possivelmente sedeado em Madrid mas eleito por sufrágio universal nos dois países. Nestas condições, seria admissível que a nova federação se mantivesse como membro da União Europeia, com uma única representação em vez de duas? Não creio que os tratados prevejam tal possibilidade mas penso que ela não teria grande oposição por parte dos restantes membros, a menos que…

A questão é que, embora uma Federação Ibérica pudesse ser bem acolhida, deixaria de haver impedimento a que outros países pudessem optar por uma via semelhante e uma hipotética, tanto quanto improvável, Federação Franco-Germânica faria franzir o sobrolho a muita gente. Penso que a via federativa é uma inevitabilidade para a Europa mas o caminho para lá chegar não vai ser fácil, porque o equilíbrio de poder vai ficar perturbado e porque a inevitável perda de soberania dos estados vai deixar nervosos os políticos. Muitos virão acenar com o espectro da perda de identidade cultural, o que eu penso que é o falso problema, sendo que a cultura dos povos será perfeitamente capaz de resistir a prova do federalismo, quando ele vier.

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Europa no fio da navalha

A União Europeia pode começar a desfazer-se esta semana ou pode sair dela reforçada. Pessoalmente prefiro a segunda hipótese, por causa das imprevisíveis convulsões que se seguirão a uma eventual dissolução, mas é para mim claro que não haverá futuro para esta união se ela não evoluir no sentido do federalismo, abdicando os estados de parte da sua soberania em favor de uma soberania europeia; chegou a altura das decisões cruciais e ou isto vai ou racha!

Tenho poucas dúvidas de que existirá, num futuro mais ou menos próximo, uma espécie de federação europeia, porque os europeus acabarão por perceber que já não conseguem ser competitivos, no mudo actual, se não se constituírem em superpotência. O que já não tenho como certo é que a consciência de pertencer a um todo europeu esteja suficientemente disseminada para que se dêem os passos necessários ao incremento da integração. O problema está também nos lideres políticos que temos, que defendem a ideia de Europa nos discursos mas não são consequentes nos actos.

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